Frankestein #2: O filme de 1931

Continuando a saga aqui no blog do Frankestein, hoje vamos falar do filme de 1931. O fio condutor sempre parte de Mary Shelley.
Como diria o Renan do choque de cultura: "tem que ler o livro pra entender o filme agora? Eu vejo o filme pra não ter que ler o livro". A nossa conversa hoje não é pra dizer se o livro é melhor que o filme nem nada do tipo. Entendo que são dois formatos muito diferentes, o cinema quase sempre terá perdas e consolidações a fim de manter o filme factível e compreensível pelo público.

Nós vamos fazer algo melhor aqui: interpretar cada obra e extrair as visões de mundo da época e do autor/da autora, respeitando e apreciando o meio de produção (livro ou filme).
Então o filme de 1931 — do então jovem cinema de terror — traz a perspectiva de uma criatura monstruosa criada pelo cientista Victor Frankenstein, que é mostrado como uma pessoa ambiciosa e arrogante, mas mesmo assim acaba sendo enquadrado como o "mocinho" do filme e é até meio simpático.
A história gira em torno de uma criatura criada pelo cientista. O grito de "IT'S ALIVE" virou um marco no cinema de terror e se expandiu pra cultura pop. Mesmo que você nunca tenha lido ou assistido aos filmes, você certamente já viu em outras obras referências a esse momento.
Mas o filme apaga muito da parte da culpa e da responsabilidade do criador e move essa culpa para a criatura. Então muito do filme pode ser interpretado como "porra o bixão acordou corre rapaziada".
E tem uma modificação muito importante: o filme modifica um detalhe sobre terem obtido um cérebro de um criminoso para implantar na criatura, o que explicaria a sua maldade.

Essa ideia dialoga com os debates da época ao redor do determinismo biológico. Seria a criminalidade algo biológico, genético? Nomes como Cesare Lombroso e seu livro "O homem delinquente", e também as ideias hoje chamadas de Darwinismo Social tentavam justificar comportamentos a partir de premissas biológicas. Hoje esses ideais são amplamente entendidos como racistas, como uma forma de confirmar os vieses da época.
Percebe como é magnífico esse grande diálogo? A obra original de Mary Shelley dialogava com a própria experiência e sua visão de mundo da mente como uma tabula rasa. Ela manteve gritantes as consequências do abandono em sua obra. Já os produtores de Frankenstein preferiram descartar um pouco a ideia do abandono e optar por incorporar uma solução de roteiro (o cérebro criminoso) dialogando com as ideias — hoje sabidamente racistas — da época. O cinema tem a capacidade de congelar no tempo a percepção de um diretor e/ou de uma sociedade. Esse recorte será sempre imperfeito e enviesado, mas ainda assim, um recorte que nos ajuda a entender as coisas não como eram, mas como julgava-se necessário documentar.
Pra finalizar, assista ao filme de 1931. Ele tem pouco mais de uma hora e vale muito a pena. Esses clássicos do terror são excelentes e nos mostram as origens de várias referências que aparecem em todo lugar.
Precisei falar tudo isso pra poder fazer o post que estou muito ansioso pra fazer: a adaptação do Del Toro pra Frankenstein, sempre partindo de Mary Shelley pra tentar entender a obra completa e suas ramificações. Será que eu gostei do Frankenstein do Del Toro? Em breve, nesse mesmo horário (mais ou menos) e nesse mesmo canal (o th.blog.br). Um abraço!
Ah, junto desse grande diálogo dos livros e dos filmes, essa conversa está expandida aqui no bearblog! A amiga do semdominio escreveu o texto Coincidências que adiciona muito mais contexto e profundidade pra Mary Shelley.
A lista de textos, até o momento, está assim:
- th.blog.br - Frankenstein #1: Mary Shelley e uma história do abandono
- semdominio - Coincidências , mais profundo sobre a Mary Shelley e seu contexto familiar
- th.blog.br - Frankenstein #2: O filme de 1931, pra falar dessa icônica adaptação que ajudou a moldar o cinema do terror, mas ainda devia muito em profundidade da história.
- EM BREVE th.blog.br - Frankenstein #3: Del Toro, com a nova adaptação do filme em 2025, que melhorou muito em profundidade e se aproxima muito mais da obra original, mas tem umas nuances interessantes que nos ajudam a entender tanto a Mary Shelley quanto o próprio Del Toro.
E adiciono dois posts que estão no ramo dos desejos ainda:
- th.blog.br - um post com as canetadas mais sinistras do livro
- th.blog.br - Comparação dos detalhes modificados em cada filme em relação ao livro