como a câmera decide a exposição da foto?
e aí, de boaa?
Já viu uma cena que tinha um contraste sinistro, tipo uma luz entrando pela janela, mas quando você foi tirar a foto, ficou tudo meio meh? Como se a luminosidade da cena no visor da câmera ou celular estivesse bem diferente do que você estava vendo?
É justamente disso que vamos falar hoje! Vamos entender certinho como as câmeras calculam a exposição das fotos, e como ajustar isso pro seu gosto.
Pra exemplificar, hoje de manhã estava entrando uma luz incrível no sofá que a E.K. estava tirando a soneca matinal dela. Vou te mostrar a foto do celular sem ajuste nenhum, depois a foto da câmera com os ajustes que estou falando (sem edição, só ajustes na câmera mesmo):


Câmera vs olho humano
Já comentei nos outros posts da tag #fotografia que nossos olhos funcionam de forma diferente da câmera. Faz parte do aprendizado entender as diferenças pra falar bem a linguagem fotográfica.
Um desses detalhes é quantas variações tonais o nosso olho percebe, vs a câmera. A variação tonal seria quantos tons de cinza estão entre a parte mais escura e a parte mais clara do ambiente/foto.
Estima-se que nossos olhos podem enxergar cerca de 20 "stops" de variação tonal, enquanto as câmeras de entrada registrariam cerca de 12.
Veja abaixo essa diferença. Enquanto o olho consegue perceber toda a variação dos tons de cinza, a câmera precisa escolher onde captar (!!!). Por padrão, fica mais ao meio. Com ajustes pode dar prioridade aos tons mais escuros ou mais claros dependendo da cena. (pode clicar nos botoezinhos, eu tô high-tech hoje)
Cálculo padrão de exposição - cinza 18%
Com as limitações da câmera na captação da variação de tons, os fabricantes estipulam que a maioria das fotos fica boa numa faixa específica de luminosidade.
Esse cálculo é assim: tira a cor da foto e faz uma média dos pixels da foto. Assim, os fabricantes estipulam que a maioria das fotos fica bom com esse nível de refletância abaixo, esse cinza:
Mas aí você pode e deve questionar:
- E se minha cena for mais clara?
- E se for mais escura?
- E se eu estiver com uma parede preta atrás de mim? Isso vai bagunçar o cálculo da média do cinza e vai ficar esquisito?
- E se tiver um feixe de luz incidindo sobre uma cachorrinha e você quer registrar o contraste daquele feixe? O cálculo de novo vai ficar esquisito.
Até pra você fazer um teste desse conceito, faça o seguinte. Chegue a câmera colada numa parede branca e bem iluminada. A foto vai ficar meio cinza. Faça o mesmo pra alguma coisa totalmente preta. A foto também vai ficar meio cinza! Essa é o ajuste da câmera pra que tudo fique na faixa dos 18%.
Abaixo foto da parede branca que ficou cinza - JURO PA VOCES!

Fique comigo na próxima seção que vamos entender como resolver essas questões.
Ajuste de exposição (EV)
A exposição padrão da câmera é um bom ponto de partida, mas a depender da sua cena e do seu gosto, você precisa falar pra câmera: "Ô fia! esse lugar tá escuro mesmo, não precisa clarear pra mim não!"
E essa é a compensação de exposição, ou EV (Exposure-value). Esse valor é geralmente expresso em unidades até 3, tipo -3 -2 -1 0 +1 +2 +3. Zero é o valor padrão, do cinza 18%. Se você escolher os números negativos, a câmera vai recalcular considerando que você prefere a faixa tonal mais escura. Ou se for positivo, a faixa tonal mais clara.
Tão simples né, depois que a gente entende o mecanismo?
Então, na cena de hoje pela manhã da E.K. no sofá, a cena estava mais razoavelmente escura, e o feixe de luz entrando bem direcionado onde ela tava. O que eu fiz foi diminuir a compensação de exposição (EV) pra uns -2. Isso fez com que a câmera priorizasse os tons mais escuros da foto, assim, a parte mais clara ficou em evidência.
Mais algumas de hoje:


Nessas fotos eu quis deixar bem escuro o fundo, mas em geral você precisa dar só +1 ou -1 pra boa parte dos casos. O ideal é tentar deixar a cena mais parecida com o que você tá vendo, ou extrapolar mesmo o efeito criativo! Você que manda ;)
Outras notinhas
Lembram do HDR, aquela configuração boa pra tirar fotos de paisagem? Então, isso é uma forma do celular tirar várias fotos, uma com cada EV, e depois combinar digitalmente pra ficar tudo claro e cobrir lá os tais "20 stops de luz" que o olho enxerga.
Ah, voltando no EV, pra fazer isso no celular, você apertar e segura. Vai aparecer um slider pra diminuir ou aumentar. É a mesma coisa do que expliquei:

Vera72dpi, cadê você?? Incendiou o bearblog com 3 posts incríveis só pra nos deixar na saudade. Esse post dela "Fotografar com o Celular" dialoga muito bem com esse post:
O celular atual - o que ficou na gaveta quando comecei o experimento dumbphone esse ano - tinha um sistema de câmera que fazia coisas que eu não pedi. Ajustava exposição antes que eu decidisse a exposição. Sugeria enquadramento com uma caixinha pontilhada. Aplicava processamento que deixava tudo ligeiramente mais bonito do que estava. E "ligeiramente mais bonito" é exatamente a quantidade de intervenção que você não percebe no momento, mas que acumula.
É uma observação sobre o que se perde quando a ferramenta assume os riscos no seu lugar. Risco zero, aprendizado zero. Foto bonita. Designer mediano.
E estamos juntos nessa. Tal como um pintor tem que entender como suas tintas vão se combinar e influenciar o resultado final, tal como um músico precisa entender como os arranjos musicais afetam o sentimento projetado na música, as decisões criativas na fotografia permitem uma maior expressão de sentimentos e cenas. Por isso, não quero que o fabricante da câmera tome conta dos processos criativos. Deixa comigo mesmo!