Teatro com Libras e histórias de vó
Há uns meses assisti a um teatro de rua na temática de Paulo Freire. A peça trazia muitos elementos sobre educação e tinha um jeito leve e brincalhão de passar pelos atos. Um nível altíssimo de língua portuguesa, pois parecia que o grupo brincava com as palavras; as frases, versos e cantigas se encaixavam com muita leveza.
O grupo todo era talentosíssimo, mas hoje vou destacar a atriz que estava fazendo a interpretação em Libras. Gente, que entrega sensacional. A expressividade, os gestos, a cadência. Só ela adicionava uma riqueza à peça, parecia que dava alma pra coisa, e veja só, eu diria que melhorava o entendimento do texto pra todos os presentes.
O último ato trouxe de volta as peripécias da linguagem, valorizando a cultura falada popular. Pra isso, eles cantavam sobre coisas que avós diziam, talvez uma forma de dizer que se perdeu, ou uma gramática diferente, ou ditados que não são mais tão comuns. Com isso eles passavam perguntando pra plateia quais eram as coisas que as avós delas diziam, que hoje não se diz mais (pelo menos não da mesma forma). O resultado foi riquíssimo! Ouvir de várias pessoas as falas das avós delas foi muito bonito; parece que trouxe mais vida pra memória delas.
Afinal, qual a fala da MINHA avó? Eu te conto, ela dizia "Faz por donde, menino!". Fique comigo nesse post, depois das fotos eu vou explicar o que isso significa:



















Essa conversa de Paulo Freire me deixou pensativo e lembrando com carinho da minha avó por parte de pai. Veja, eu venho de família caipira do interior paulista. Meus avós e meu pai se mudaram pra cidade quando meu pai tinha 20 anos, já que a vida na roça vinha se mostrando difícil em termos de possibilidades de trabalho. Minha vó nunca estudou, então ela não sabia ler nem escrever.
Me intriga o fato de a minha avó ter cultivado um tipo de sabedoria diferente. Na falta de poder ler, ela passava muito tempo conversando com as amigas, com as vizinhas, traçando seu conhecimento de forma oral. Algumas dessas amigas tinham netos numa idade poucos anos a frente do meu irmão mais velho, então ela tinha muita informação sobre como funcionavam vestibulares e alguns tópicos acerca da educação.
Ela tinha uma convicção: a educação era a única alavanca capaz de transformar nossa vida. O incentivo ao estudo pra mim sempre foi tão natural, pois nunca me restou dúvida do sacrifício que meus ascendentes fizeram e quão cruel foi a falta de estudo e possibilidades. Nessa convicção e por meio dessas conversas, ela entendeu que inglês era importante. Tinha que estudar esse negócio. Assim, por volta de 2006 ou 2007, ela tirava uma parte da sua aposentadoria pra que meu irmão fizesse aula de inglês. Eu ainda não, pois não dava para os dois fazerem a aula, mas alguns anos depois, quando meu irmão começou a trabalhar e eu pude também estudar inglês.
Veja só, meu trabalho hoje exige a tal língua estrangeira e eu uso todos os dias. Antes de eu me entender por gente, minha avó — que era analfabeta — já sabia o caminho da educação. Já sabia o que tinha que fazer, e botou a gente pra estudar. Essa história me causa duas sensações: eu fico intrigado por perceber como ela era uma pessoa sábia, sensata e com uma visão de mundo que contrariava as estatísticas. E também fico muito orgulhoso e muito grato de ter tido essa avó.
Voltando às falas de vó do teatro, a fala dela "Fazer por donde" significa então "faça sua parte", "faça por merecer", "dê o seu melhor", "faça o que for possível". Acho que era a forma dela de dizer pra eu fazer a minha parte, que ela estaria fazendo a dela e pensando no melhor pra gente. E assim foi feito. A saudade dói, claro, mas os sentimentos de carinho e gratidão amenizam tudo. E do lado de cá, eu sigo fazendo por donde.
Ei! Agora é com você! Tal como no teatro que pedia pra plateia contar as expressões e histórias de vó, como um exercício de manter a linguagem popular e a memória viva, eu vou deixar o convite pra você também deixar um comentário aqui no guestbook me contando qual é a expressão, fala ou ditado da sua vó que hoje não é tão comum mais. Talvez as respostas viram um novo post, quem sabe? Ou eu atualizo aqui? Veremos. Um abraço e deixe seu salve