as músicas de carnaval explicam o status-quo

Talvez seja saudade do carnaval, pois hoje vamos analisar algumas músicas e interpretar como o eu lírico dialoga com o imaginário popular de cada período.
Vamos começar com essa poesia da banda Psirico, "Lepo lepo" (2014):
Ah, eu já não sei o que fazer
Duro, pé-rapado e com o salário atrasado
Ah, eu não tenho mais pra onde correr
Já fui despejado, o banco levou o meu carro \
Agora vou conversar com ela
Será que ela vai me querer?
Agora vou saber a verdade
Se é dinheiro, ou é amor, ou cumplicidade
Eu não tenho carro, não tenho teto
E se ficar comigo é porque gosta
Do meu rá rá rá rá rá rá rá o lepo lepo
É tão gostoso quando eu rá rá rá rá rá rá rá o lepo lepo
O eu lírico da música traz uma ideia de que o dinheiro e status não são determinísticos para que os afetos aconteçam. Veja o trecho "Eu não tenho carro, não tenho teto, E se ficar comigo é porque gosta". De uma certa forma, no imaginário popular dessa época, reinava a ideia de que o dinheiro não era o mais importante.
Vamos adiantar 10 anos agora, e analisar o que a música "Resenha do Arrocha" (2025) do poeta J. Eskine tinha a dizer:
Solta a carta, caralho
Tigrinho, filha da puta
Pra eu pegar o meu dinheiro
E comer umas quatro puta
Perceba que o período literário já mudou. Aqui temos indícios de uma crise na masculinidade. Vemos um eu lirico viciado em bets, possivelmente sofrendo de ansiedade, pois a sua frase é "Solta a carta caralho tigrinho filha da puta". Essa colocação denota pressa e imediatismo diante da entidade efêmera chamada "Tigrinho", que pode ou não soltar a carta. Também vemos a relação com a prostituição como finalidade para o dinheiro das apostas, o que pode nos mostrar que praticamente não há desejo de construir afetos mais duradouros com as pessoas de forma espontânea.
Na contramão da masculinidade em crise, vemos a feminilidade, com suas diversas formas, em ascensão. Canta assim a rainha/poeta Ivete Sangalo em "Energia de gostosa" (2025):
Ela primeiro ela, ela segundo ela, ela terceiro ela
Ela se arruma só pra ela
Ela primeiro ela, ela segundo ela, ela terceiro ela
E as amiga dela
Autoestima lá em cima
Energia de gostosa
Ela passa balançando a lace
Decidida, bonita e cheirosa
Ela bate no peito que é foda \ Energia de gostosa
Se sozinha ela já dá trabalho
Quando junta as amiga, incomoda
Sai de baixo que lá vem a tropa
Energia de gostosa
Vemos que as mulheres estão melhores que os homens em termos de estado mental, e é notória a autossuficiência em "Ela se arruma só pra ela"; o eu lírico não precisa da validação masculina, tampouco vai se colocar em segundo lugar, como diz em "Ela primeiro ela, ela segundo ela, ela terceiro ela".
Pra fechar o ciclo, falaremos de Jetski (2026):
Em cima (em cima)
Em cima do jet-ski
Vou rebolar pra tu (oh-oh-oh)
Nessa onda sexy
Te deixo maluco (oh-oh-oh) \
"Vou rebolar pra tu (oh-oh-oh)" mostra que os afetos estão acontecendo, mas veja ONDE eles vão acontecer: "Em cima do jet-ski". Temos uma denotação contrária ao Psirico, que, se em 2014 o imaginário popular clamava pela separação entre afetos e poder econômico, aqui vemos uma aproximação das duas esferas, quase que um pré-requisito. Ou seja, o ato de "rebolar pra tu" do eu lírico depende da existência de um Jetski, o que deve ser muito caro. Ou talvez dá pra alugar? Não tenho nem como saber; minha situação financeira é mais Psirico das ideias.