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catedrais e a beleza da escrita

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Estou lendo o livro Catedrais, da Claudia Piñeiro, que foi indicação da bia. Ainda nem terminei, mas vou fazer um curto post pra demonstrar uma habilidade dos escritores que eu acho magnífico: o uso das orações subordinadas e apostos.

Deixa eu situar vocês. Não diria que é um spoiler, pois isso acontece nas primeiras páginas do livro. Vem na tranquilidade ;)

Estamos no velório de Ana, a irmã da narradora. Até aqui não sabemos exatamente como ela morreu, apenas que morreu muito jovem. A narradora, Lia, diante do horror da situação, declara seu ateísmo na frente de todos, o que gera um mal estar em todos os presentes.

Ficou assim o trecho:

(...) era necessário dizer aquilo no meio do velório da Ana? Não tenho dúvidas que sim, de que disse aquilo naquele momento e em circunstâncias fúnebres porque devia isso a ela, porque queria falar aquilo antes que seu corpo — os pedaços dele — fosse sepultado e condenado a permanecer definitivamente debaixo da terra (...)

A informação mais chocante está dentro de uma oração subordinada, e dentro de um aposto (— os pedaços dele —). Até então não sabíamos como ela morreu, e sem rodeios a gente recebe a informação que A MENOR FOI ESQUARTEJADA. Brutal.

O que torna essa forma de contar interessante é que, na língua portuguesa, podemos interpretar que as orações subordinadas carregam menor peso gramatical1 que a oração principal, já que a oração subordinada depende da oração principal pra ficar completa.

Os bons escritores podem brincar com essa lógica e colocar a informação mais gritante dentro da oração subordinada, pra gerar certos efeitos dramáticos. Nesse caso, o efeito é que recebemos uma informação tão chocante no meio da parte "menos importante" da oração.

De certa forma, isso carrega bem o tom da personagem. A Lia acaba de perceber que nem um suposto Deus foi capaz proteger Ana desse destino. Ela está lidando com o luto percebendo o quão sozinhos e desamparados somos na vida. Isso bate com o restante do estilo da construção da personagem. Dá pra perceber a frieza nas suas palavras.

Vamos quebrar certinho pra ficar claro o que quero dizer:

A pergunta: "era necessário dizer aquilo no meio do velório da Ana?"

A oração principal responde: "Não tenho dúvidas que sim,"

Mas também uma oração subordinada adiciona um contexto: "porque queria falar aquilo antes que seu corpo fosse sepultado"

Não o bastante, dentro dessa oração, tem também o aposto que adiciona a informação principal, e tudo junto fica assim: "porque queria falar aquilo antes que seu corpo — OS PEDAÇOS DELE — fosse sepultado".

Bom, quando pensamos em o que define uma boa escrita de uma escrita mais ou menos? Boa poesia de poesia ruim? Pra mim, seria a capacidade de transmitir a emoção usando os artifícios da linguagem disponível pra moldar o tom. No texto do mestre Machado de Assis falei um pouco mais sobre isso, então a essa altura vocês entendem que eu acho um barato todos autores que controlam o fluxo de informações com maestria.

Como será que um autor mais ou menos daria essa informação? Provavelmente começaria com essa informação. "Ai pq ana foi brutalmente assassinada, picotada, etc etc e eu chorei muito etc etc" (eu escreveria assim kkkkk pra ver a distância dos profissa pros meros mortais). Já a Claudia Piñeiro fez da forma que mostrei pra vocês. Deu a informação de supetão, como se fosse um socão na cara.

É isso por hoje, ansioso pra continuar o livro, só quis trazer esse pequeno detalhe que eu gostei muito. Um abraço!

  1. Eu acho que é uma extrapolação falar que a oração subordinada tem peso gramatical menor. O mais correto seria dizer que não importa o peso, já que informação relevante pode estar contida tanto na principal quanto subordinada. O que muda é apenas a dependência estrutural. Mas quando eu leio ou escrevo eu percebo essa questão do peso gramatical, então quis fazer essa interpretação minha aqui no bloguinho.