Frankenstein #1: Mary Shelley e uma história do abandono
To you first entering on life, to whom care is new and agony unknown, how can you understand what I have felt and still feel?

Hoje é dia de botar pra jogo um texto que venho ensaiando desde antes do blog existir. Acho que demorei tanto porque a obra da Mary Shelley é tão querida pra mim que eu tenho receio de não fazer jus com minhas palavras. Mas como sempre, vou investir no feito é melhor que perfeito. Se precisar, eu faço mais posts ou refaço. Não tem erro.
A princípio, vou precisar de 3 posts pra contar a história:
- (esse) Frankenstein #1: Mary Shelley e uma história do abandono, pra contar mais sobre a autora e sobre as nuances da história.
- Frankenstein #2: O filme de 1931, pra falar dessa icônica adaptação que ajudou a moldar o cinema do terror, mas ainda devia muito em profundidade da história.
- Frankenstein #3: Del Toro, com a nova adaptação do filme em 2025, que melhorou muito em profundidade e se aproxima muito mais da obra original, mas tem umas nuances interessantes que nos ajudam a entender tanto a Mary Shelley quanto o próprio Del Toro.
Creio que esse foi um dos primeiros livros que li em inglês de ponta a ponta, tentando acessar a obra no idioma original1. Ficava vidrado nos diálogos densos e chocado com as brutalidades que aconteciam. A linguagem mais arcaica traz uma atmosfera assombrosa.
Para além de ser a primeira ficção científica2, essa é, sobretudo, uma história de abandono. Victor Frankenstein se isola por anos e faz esforços por anos para dar vida a uma criatura, mas no momento em que a criatura abre os olhos, ele sente repulsa pela sua criação e a abandona.
A criatura, sozinha, precisa aprender a se localizar no mundo. Aprende a perceber a luz, os sonhos, os gostos, a saciar a fome. Aprende que as pessoas irão afastá-la violentamente se preciso, então a criatura passa a viver nas sombras. Também aprende a falar ouvindo uma família do campo que mora em uma cabana.
O criador é encontrado pela criatura, que novamente se repulsa pela sua criação. A criatura entende que jamais teria o amor de seu criador, por isso pede para que o criador faça uma parceira para ser a sua semelhante. Victor recusa, pois não poderia dar vida a outra criatura repugnante. E ele paga o preço de sua escolha.
Parte da dinâmica dessa história recai sobre a responsabilidade dos criadores. O que devemos àquilo ou a aquele que colocamos no mundo? Note a ambiguidade da pergunta. Podemos falar de pais biológicos e seus filhos. Podemos falar de inventores e suas criações. Até de figuras divinas que teriam colocado a humanidade desamparada no mundo, por que não?
E quanto às criaturas, também vemos alguns dilemas. A criatura não nasce má3; sua monstruosidade é produto da rejeição social. Quando voltamos o olhar pra autora, vemos que sua história materializa algumas de suas dores. A mãe de Mary Shelley morreu pouco tempo depois do parto; logo, sua infância foi marcada pelo abandono parental também.
Por fim, esse é só um daqueles posts pra gente apreciar a genialidade. Ela escreveu o livro por volta dos 18-20 anos, o que é absurdamente incrível pela densidade da história, pela sensibilidade e pela percepção apurada do mundo.
Fica prometido então que nos próximos posts vamos falar do filme de 1931 e do filme do Del Toro, onde quero mostrar como a percepção de mundo do autor se infiltra na obra e nas adaptações.
Por hoje é só! Fique ligado nesse mesmo horário (mais ou menos) e nesse mesmo canal (th.blog.br) para os próximos capítulos dessa obra que tem um lugar especial no meu coração.
Eu lia no Kindle, então palavras novas e mais arcaicas eram fáceis de ver o significado. Curiosamente, estava achando mais gostoso de ler em inglês, apesar das palavras novas, algumas adaptações de tempos verbais pra português (o present perfect e o past perfect) ficam um pouco maçantes na minha opinião quando traduzidos.↩
Nos 1800s e guaraná com rolha a ciência dava largos passos com a invenção da eletricidade, e o galvanismo (a contração muscular promovida pela eletricidade), um cenário fértil pra história. Note que a Mary Shelley incorporava os debates mais atualizados da ciência, levando aquilo ao extremo, do tipo: e se isso der certo, aonde chega?↩
O debate na época trazia Rousseau com "o ser humano nasce bom mas a sociedade o corrompe" vs. Hobbes com "o homem é o lobo do homem". Na obra de Mary Shelley vemos uma abordagem mais à la Rousseau, já que a criatura nasce boa e desenvolve sua monstruosidade a partir do abandono.↩