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O dia que eu entendi machado de assis

e aí, de boa?

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Você se lembra de quando entendeu o quão incrível a literatura pode ser? Eu me lembro do exato momento em que as coisas clicaram pra mim, e é isso que vou contar hoje.

Vamos do início. Eu já tinha o hábito da leitura desde cedo, porém acabei sendo bem vagabundo no ensino médio, onde tínhamos as aulas mais aprofundadas de literatura/português. Tinha algumas coisas concorrentes rolando na minha vida nesse período, então eu escolhi algumas matérias pra só ir empurrando com a barriga mesmo.

Isso às vezes me incomoda um pouco. De um lado, eu sinto que se tivesse aproveitado melhor essas aulas (com uma professora muito boa) eu teria mais facilidade pra navegar nos gêneros, autores, períodos.

De outro lado, eu entendo que enquanto adolescente eu ainda não tinha carga de vida suficiente pra entender a profundidade das coisas. E a gente adolescente é meio burrinho mesmo.

Li (tentei ler) Dom Casmurro lá pros 12, 13 anos, nem terminei de tão chato. Acho que parei na parte do seminário. Li de novo ano passado e a percepção é muuuuuuuuuuuuuuito diferente. Porém, caro leitor, aguarde. Dom Casmurro é papo pra outro dia.

Passado o ensino médio eu estava na rotina de trabalho e faculdade. Nessa época eu trabalhava de manhã/tarde e estudava à noite, fazendo muitos trajetos de ônibus. Lia muito no Kindle, já que me permitia ler no escuro e carregar pouco peso em livros. Nada contra quem gosta do cheiro dos livros novos, mas me adaptei muito com Kindle e foi super necessário pra eu poder ler na época.

Pois bem, estava eu lendo "As memórias póstumas de Brás Cubas", na minha tentativa de ler os clássicos e recuperar o conhecimento que eu deixei escapar no ensino médio. Estava gostando muito do livro, tudo bastante dinâmico, interessante, fluindo bem.

Ao longo do livro reparei que uma parte estava ficando mais maçante. Tipo mais lento, agarrado, tedioso. E foi que o bruxão do cosme velho me lança esse parágrafo:

Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...

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E aí eu fiquei CARALHOOOOOOOO. OU SEJA: no começo do livro que contava a juventude, os capítulos eram energéticos, rápidos, divertidos, irônicos. Ao longo do envelhecer, a escrita passa a replicar a ideia de que a vida nem sempre anda linear, como ele mesmo diz, um estilo que lembra um bêbado caminhando. Vai, volta e resmunga.

Ah! Que momento especial. Lembro como se fosse ontem. Aí eu entendi uma coisa que nunca tinha parado pra pensar: quem escreve consegue controlar o ritmo da leitura (!!!!). Conseguem deixar mais dinâmico ou mais tedioso conforme a história pede.

COMO ASSIM nossas emoções durante a leitura podem ser manipuladas pelo ritmo da escrita? Aparentemente era isso mesmo.

Depois disso, eu comecei a entender os livros de outra forma, passei a entender melhor os estilos dos autores e autoras, suas variações e preferências. Consegui me aprofundar e curtir cada estilo de cada um. Como se a partir desse ponto eu entendesse que nem todo livro é "igual" no sentido de ser uma história e pronto. Cada livro vai ter o tchã do autor/autora.

É isso por hoje! Obrigado por ler até aqui. Se você se lembra de quando a literatura passou a fazer sentido pra você de uma forma diferente, me conte no "deixe um salve". Eu sou curioso e gosto de saber como foi essa jornada pra outras pessoas.

Abraço!

#livros #vida