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Avicii: Meu Nome é Tim (2024)

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Há uns meses vi o filme Avicii: Meu Nome é Tim (2024) e desde lá estou matutando algumas coisas. Vou compartilhar um pouco hoje sobre percepção da genialidade nas várias esferas da música, como o período influencia a arte, profissão X arte, e sobre realismo capitalista. Bora!

A primeira coisa que me pegou no filme foi entender um pouco de como se faz a música eletrônica. Nunca pensei muito sobre isso, e na época do Avicii eu não me ligava muito nesse gênero. Mas aí vem a pergunta: se o computador gera a música, existe arte ali?

Ao que descobri que sim, muita! O Tim era um multi-instrumentista e dominava o piano e o baixo. Mas ele, ainda jovem, percebia que não teria a paciência pra praticar anos pra poder se expressar artisticamente, e nem a resistência física pra poder praticar horas por dia e apresentar suas performances num palco. Logo, o Tim tinha um grande domínio de teoria musical, melodias, tons e arranjos. Ele tinha a tal inteligência musical, que na cabeça dele essas loucuras toda faziam sentido.

E aí temos um ponto de virada que explica meu argumento em prol de que esse maluco é gênio: ele foi entendendo que a produção eletrônica dele era o meio, não o fim. O meio pra servir outras construções musicais como a voz e outros instrumentos. Com isso ele investiu em melodias mais minimalistas que exaltavam e complementavam a voz.

Um episódio zuadaço foi em 2013, no Ultra Music Festival, em Miami. o Tim/Avicii já estava no auge. Nessa pegada de ter a voz como assunto principal e a música como suporte, eles tocaram Wake Me Up1 pela primeira vez, que é uma música que começa só com um banjo e a voz. Viiiiiiiiiiiiiiiiishhhhhhh. O bando de playboy safado da platéia não gostou nada disso. Depois de passarem um dia todo cheio de tuts tuts intermináveis, pirotecnia e dançarinas de biquini, a galeria simplesmente odiou a ideia mais minimalista e teve vaia.

Esse foi um momento muito dramático pro Tim, e o filme mostra bem como a rejeição o afetou na época. Curiosamente, após alguns meses, essa música se tornou a #1 em vários países. Pelo jeito, o público de playboy-vagabundo-que-paga-pra-ver-o-artista-e-depois-vaia só não estava preparado mesmo pra ver um novo paradigma da música, tanto é que esse estilo de misturar folk e country com as eletrônicas cresceu muito após isso.

A insegurança do Tim era: será que eu sou um músico de verdade? Pra responder isso, vou ter que misturar os assuntos. Luiz Gonzaga: cantor, compositor e multi-instrumentista é um artista que muitas vezes chegava pro sudeste de forma simplista como apenas "Artista regional" do nordeste. Acontece que Luiz Gonzaga é outro desses gênios. Da melodia, harmonia musical. Coisa de outro mundo mesmo. Tem uma entrevista que eu gosto muito que o Luiz Gonzaga conta que foi negado numa orquestra (depois da fama) por não saber o que era mi bemol2 , já que tocava tudo de ouvido. Então pra mim ta aí, acho que esses dois representam uma genialidade musical à frente do seu tempo, cada um do seu jeito.

Daí pra frente Tim sofre muito. Parte do dilema era conseguir entregar os shows contratados, mas aquilo já ia ficando insuportável, o que foi compensado com álcool e analgésicos. É um declínio triste, dá pra ver que ele ama a música como sua forma de expressão, mas odeia o ambiente em que pode fazer música3

Mas ei! Esse não é um post triste. Agora vamos passar por algumas das minhas músicas favoritas e falar sobre algumas interpretações:

Músicas e interpretações

Pra mim, o Realismo Capitalista4 é o que melhor explica esse período da música do Avicii na Europa. O sentimento de desesperança, talvez um apego com um passado que não existe mais na música Wake Me Up (2013)1:

They tell me I'm too young to understand
They say I'm caught up in a dream
Well, life will pass me by if I don't open up my eyes
Well, that's fine by me

So wake me up when it's all over
When I'm wiser and I'm older
All this time I was finding myself
And I didn't know I was lost

É importante notar que o sentimento geral na Europa era bem diferente no Brasil, os ditos centralidade do capitalismo x periferia/sul global. O Realismo Capitalista é de 2008, e já tinha se formatado uma realidade pros mais jovens de falta de perspectiva em temas de trabalho e sociedade.

E aí outras músicas trazem uma certa pureza de afeto, uma poesia simples e singela em Gonna Love Ya (2015)5:

I'm gonna love ya, like no one could
Make your heart feel the way it should
I'm gonna hold ya, when no one would
'Cause I swear you deserve so good

Livin' up in California
Lovin' life but I've been waiting for ya
To turn my dreams and twist my fate
But God I hope it's not too late

E aí uma música não do Avicii, mas do mesmo período que mostra essa ideia de um passado mais romantizado, como em Lean On (feat. DJ Snake & MØ) (2015):

Do you recall, not long ago
We would walk on the sidewalk
Innocent, remember?
All we did was care for each other

But the night was warm
We were bold and young
All around the wind blows
We would only hold on to let go

Traz uma ideia de que no passado havia mais parceria, como em All we did was care for each other. Parece que a ideia de olhar pro futuro é tão dolorosa que resta olhar pro passado com nostalgia.

Por fim, não deixe de ouvir a versão de Feeling Good:


Pra mim a música é uma forma de dar um grande passeio pela humanidade, pelo imaginário popular. As músicas não documentam "bem como era", mas quase isso. Elas documentam mais ou menos o que se esperava que a arte captasse. É um recorte imperfeito, claro, mas eu fico alucinado nessas paradas. A arte, com todas as suas formas, é bela!

  1. Wake Me Up

  2. Entrevista do Luiz Gonzaga dizendo não saber o que era mi bemol

  3. Veja também: - O profissional bom tem que trabalhar com ódio?

  4. Estou enrolando pra fazer um post mais completo sobre o Realismo Capitalista. Até lá, dê uma olhada nesse post: - Tem capitalismo até depois da morte? Filmes da semana #2

  5. Gonna Love Ya

#filmes #música