yoga

Testa no chão, braços estendidos, barriga sobre os joelhos. Começo na postura da criança. Estou calmo, olho pra dentro. Ainda vou aprender como viver. Tomo minhas primeiras inspirações.
Algumas torções e o corpo vai despertando. Estou em quatro apoios. Olha só! Eu tenho articulações e elas se movimentam. Postura do gato-vaca. Olha só! O movimento é coordenado com a respiração. Peraí, eu respiro??! Que demais. Inspiro, a coluna estende. Expiro, a coluna flexiona e arredonda por um grande fio que conecta todo o corpo.
A energia da infância e juventude chega junto com algumas saudações ao sol. Repito sem cansar. O calor do sol já começa a aquecer o corpo.
As batalhas chegam junto com a vida adulta. Não é um momento de raiva, mas sim de perseverança. A postura do guerreiro é simples de chegar, difícil de manter. Afinal, a chave aqui é a duração. Quanto tempo aguento me mostrar firme, forte, estável? O corpo dói, os músculos tremem. Só mais um pouco. O único caminho é atravessar.
Já um pouco mais sábio, posso fazer a postura do triângulo. Uma mão busca o chão, a outra busca os céus. As articulações cedem e liberam espaço no corpo. É o derretimento das velhas dores, das velhas certezas. Agora sobra espaço para o que eu ainda não vivi.
Volto para a postura da criança. Nunca é tarde pra voltar pra origem. Olhar pra si, se acolher. Buscar a humildade. Contemplo o quanto ainda tenho que aprender.
Subo próximo dos céus, no topo de uma montanha. De lá, eu olho pra baixo e vejo os rios, os vales, vejo a luz deslizando sobre aquela paisagem majestosa. Respiro, sinto o ar puro e fresco de lá de cima. Que delícia!
Mais velho, faço as invertidas. Olha só, onde era chão agora é teto. Está tudo fora de lugar. Ainda tenho que aprender a viver nessa nova perspectiva. Agradeço às minhas pernas, que tanto me carregaram, e que agora podem descansar buscando os céus.
Tudo que nasce, morre. É hora do Savasana, a postura do cadáver. Olhando de fora, é a postura mais simples de todas. Deitar com os braços e pernas estendidos. Internamente, a história é outra. Passei a vida toda tentando controlar — empurrando o chão, buscando os céus. Agora é a hora do desapego. Não fazer nada, não segurar, não contrair. Deixar os pensamentos passearem, sem contenção. Faço minha última expiração e posso então descansar.
Acordo. O corpo está enrijecido, abro os olhos, tento entender onde estou. Sinto os cheiros. Sinto o toque. Ouço sons. Tudo é novo. Rolo pro lado, entro na postura do feto por alguns instantes, depois me sento. Tenho a dádiva de uma nova vida pela frente, e só uma questão passeia pela minha cabeça:
O que eu vou fazer com tanto?