O profissional bom tem que trabalhar com ódio?

Anos atrás, um amigo me explicou uma coisa da seguinte forma, partindo de fontes bem confiáveis (a fonte: vozes da cabeça dele).
A palavra amador tem origem no latim e quer dizer "aquele que ama". Logo, qualquer pessoa fazendo um ofício amador está fazendo aquilo porque gosta, pelo prazer da coisa.
Aprendendo fotografia, eu sinto muito isso. Passo horas e horas estudando, praticando, editando fotos simplesmente porque me agrada o processo e fico feliz com os resultados.
Agora, se a gente extrapolar a língua portuguesa, posso dizer que se tornar profissional significa trabalhar com ódio? Perder o amor pelo que faz? Perder o encanto?
Será que dá pra confiar naquele discurso meio neoliberal das ideias que diz "trabalhe com o que ama e não terá que trabalhar um dia sequer da sua vida?"
Bom, eu não tenho a resposta. Mas vou contar um pouco de como tudo isso funciona pra mim.
Eu gosto bastante do que eu faço. Entenda: eu gosto muito das tecnicalidades que meu trabalho exige, gosto de fazer o trabalho minucioso, caprichado, me sinto orgulhoso dos resultados, tipo um artesão mesmo.
Eu detesto o ambiente onde eu posso fazer o que eu faço. Entende? Pra eu fazer o trabalho que me agrada (o que um dia eu fui amador), eu preciso lidar com muitas questões políticas do mercado de trabalho que pra mim são terríveis. Eu entendo que tem gente que gosta dessa politicagem do mercado de trabalho. Não é meu caso.
Só que o trabalho coletivo é o que nos torna humanos, é o que nos diferencia dos outros animais. Essa capacidade de criar coisas grandiosas em conjunto é muito poderosa e fascinante.
Onde a coisa entra em conflito é que o trabalho coletivo gera resultados que vão para as mãos de poucos. No artigo do Kakfa eu falo um pouco mais sobre o trabalho alienado, então não vou me repetir tanto. Mas a ideia é essa: não é que odiamos o trabalho. Trabalhar faz parte de ser humano. Mas o trabalho alienado... ah esse é difudê.
Voltando pra fotografia, eu estou explorando todos os gêneros: retratos, eventos, esportes, ensaios artísticos, fotografia de rua, documental, etc. O que me chamar pra fazer, eu tô dentro. Estou descobrindo o que gosto e me divertindo no processo.
Porém, parte do objetivo dessa exploração é que eu tenha a possibilidade de eventualmente trabalhar com isso de alguma forma (um freela, etc.). Mas foi aí que o desencanto começou. Fazer fotografia profissional é bem chato kkkkk (pra mim, este que vos escreve, ok, tem quem goste). Não paga tão bem, e muitas vezes o produto do seu trabalho é só pra virar um post do instagram que a plataforma nem entrega direito quando são só fotos (sem videos/reels). Eu acho isso muito desencantador.
Então eu sigo na ideia de: eu tenho meu trabalho principal, vou usá-lo pra me permitir fazer tudo que eu gosto, mesmo que não vá gerar renda.
E também pra desconectar dessa ideia de que precisamos monetizar tudo o que fazemos. Chega né? Vamos nos permitir, vamos fazer as coisas que nos encantam sem cair no conto neoliberal de monetizar todas as áreas da vida.
Pra finalizar, esse post não oferece resposta mesmo. Eu não acho que devemos trabalhar com ódio, mas eu particularmente acho que não podemos derivar nossa satisfação pessoal do trabalho. Pq se o trabalho anda mal, ou vc é demitido, sua satisfação vai embora junto? Não acho que deva ser assim. Por isso, organizo meu trabalho não de forma central na minha psique, mas como algo tangente que precisa acontecer pra eu poder viver, mas que não é o objetivo final de tudo que eu faço.
Obrigado por ler essas ideias esquisitas até aqui, abraço!