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os olhos sem rosto (1960)

(...) Ela me escrutina com um olhar que se pretende amável e cheio de bondade. Mas de verdade, como você está se sentindo?, ela insiste. Um silêncio, em seguida ela retoma. Porque, você sabe, o rosto é a identidade. Olho pra ela, pasma (...) Gostaria de explicar a ela que, há anos, coleto narrativos sobre as presenças múltiplas que podem habitar um mesmo corpo — para subverter o conceito de identidade unívoca, uniforme e unidimensional. Gostaria também de dizer a ela todo o mal que isso pode causar, emitir um veredito desses quando, precisamente, a pessoa que se encontra na sua frente perdeu aquilo que, bem ou mal, refletia uma forma de unicidade e tenta se recompor com os elementos alter que, de agora em diante, ela ostenta no rosto.

Trecho de Escute as feras, Nastassja Martin

Das coincidências literárias e cinematográficas da vida: eu li o trecho acima ontem (já comentado no post leituras desses dias), e hoje assisti ao filme Os Olhos Sem Rosto, que também trata de desfiguração e dos signos de identidade vinculados.

A sinopse: Um cirurgião causa um acidente que deixa sua filha desfigurada e fará todo o possível para dar-lhe um novo rosto.

Bom, então passamos pela história de um médico egocêntrico a lá Victor Frankestein

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Ele sequestra mulheres pra roubar seus rostos e implantar na filha. Todo o ambiente em volta do médico é de opressão; com outras pessoas, com as filhas, com as mulheres sequestradas.

Ao final, a filha decide por sua libertação. Durante todo o filme, ela é um objeto, uma cobaia, uma sem voz, mas esse ciclo é quebrado. Senti uma retomada de dignidade da personagem, mesmo que caminhando pra um futuro incerto.


Das coisas interessantes desse filme, a personagem da filha é ao mesmo tempo delicada e fantasmagórica, já que o pai a força a usar uma máscara para cobrir o rosto:

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Com essa máscara inexpressiva, é IMPOSSÍVEL não lembrar do nosso querido, eterno e imortal Michael Myers, olha aí!

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E aí dá pra ver que nosso querido Almodóvar também bebeu dessa fonte, olha só essa cena de uma das mulheres sequestradas:

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É sempre bom revisitar os clássicos e ver a referência das nossas referências hehe. É isso por hoje, post curto, acho que quando eu terminar o livro Escute as feras pode ser que eu revisite esse filme, quando as coisas se conectarem melhor pra mim.

#filmes #livros