o custo do estresse no corpo
Queria relatar um pouco das minhas percepções sobre o que tempos de mais estresse fazem no meu corpo, que hoje eu consigo perceber. O ponto aqui não é nada muito embasado ou científico, é puramente anedótico.
Pra contextualizar, eu diria que ± entre 18 e 28 anos minha vida foi muito mais caótica. Nos últimos 2 anos eu consegui estabilizar bem o trabalho remoto, e acho que a linha base do estresse diário baixou bastante.
Pois bem, como já contei por aqui, fiz uma mudança de casa nos últimos meses. Na prática, uma mudança envolve a coordenação de 2 projetos paralelos interdependentes: fazer a devolução da casa pra imobiliária e coordenar as instalações de tudo na casa nova. Existem muitos passos sequenciais, como desinstalar x da casa antiga pra então instalar na nova, combinar com prestador de serviço, comprar algumas coisas novas, esperar chegar... enfim, a lista é longa. Fora precisar deixar o celular de um jeito que toque as notificações, pra eu não perder nenhum contato importante que estava esperando (desespelo)
Mais ou menos no início dessa loucura toda, eu comecei a dormir mal. Deitava cedo, mas por volta das 4 da manhã já acordava e não conseguia voltar a dormir direito mais. De princípio, achei que eram as viradas do tempo, ou um resfriado que tive, ou o café que tomava durante o dia.
Acompanhando a saga do camarada da Rua da Feira sobre reduzir o café, eu também me animei a reduzir, e por uns dias tomava só uma xícara pequena de manhã. Deu pouca diferença na questão do sono.
Junto (ou por consequência) com a questão do sono, foram descarrilando algumas outras coisas. Trabalhei o tempo todo durante esse período, só tive folga no dia da mudança efetiva. Então aos poucos meus níveis de concentração tavam indo pro caralho. Tarefas que regularmente eu faria rápido, eu ficava remoendo pois não conseguia entrar num estado de concentração pra completar as coisas com qualidade. Como tinha muitas coisinhas pequenas todo dia pra tomar conta, eu precisava alternar o foco muitas vezes por dia e isso foi me desgastando bastante.
Na parte física, eu ainda mantive a rotina de exercícios e alimentação. Mas, essa área também começou a ficar esquisita. Mais dor muscular tardia que o normal, fora que começaram a aparecer umas dores articulares novas, e piorar algumas que eu já tinha
Os exercícios de força são sentinelas interessantes. Pra mim, é claro: a força máxima que consigo exercer nos exercícios compostos (terra, agachamento) é muito alinhada com o estado da minha saúde geral. Por exemplo, se em um dia muito bom eu consegui levantar X peso, eu só consigo manter esse peso se toda tríade de sono, descanso e alimentação estiver funcionando bem. Mexida em qualquer uma das variáveis, é certo: o peso de antes não sobe. Eu acho isso uma forma muito legal de me manter honesto kkkkk não tem como fingir, não tem como mascarar. É ou não é.
Ao fim, passou o dia da semana. Depois de uns meses dormindo mal, adivinha quem dormiu a noite inteira de uma vez, logo na primeira noite no cantinho novo?
Aos poucos fui retomando a um ritmo mais saudável. Embora a devolução da casa pra imobiliária tenha sido um caos à parte, não chegou a piorar meu sono de novo.
Com o sono melhorado, a parte física foi voltando pro eixo novamente com uma melhor recuperação do corpo. Voltei pra yoga também, nas primeiras sessões tinha uma tensão fudida no quadril, nos ombros e nas laterais do tronco. Aos poucos foi melhorando.
O que ainda não voltou é a concentração pra trabalhar. Ainda estou achando muito custoso alternar entre os estados de foco pra completar minhas tarefas, e estou muito mais lento no geral. Estou fazendo o possível, mas acho que isso é caso pra depois do carnaval.
Reflito sobre como eu sustentava o ritmo de antes (dos 18 aos 28 ±). Será que eu amoleci, e não dou conta mais de lidar com uma vida mais caótica? Concluo que, na verdade, nunca sustentei. Parecia que sustentava, mas ao custo da saúde, ao custo de viver, aproveitar a vida um pouco. Hoje, como a minha linha de base mudou, eu consigo perceber essas variações acontecendo, mas antes, o caos era a linha de base. A própria referência mudou, aquele papo meio clichê de sair da ilha pra ver a ilha.
Acho que o nosso erro é tentar pensar no corpo com separações; tipo, tem o corpo que trabalha, o corpo que se diverte, o corpo que se exercita. Essa separação não existe, tudo que fazemos com nosso corpo e mente é interligado. Se uma parte do dia está exigindo demais, isso vai afetar as outras áreas também.
E daqui pra frente, talvez você me pergunte? Sigo tentando viver melhor, mas dentro dos princípios da yoga. Buscar o equilíbrio da aceitação, respeitando os limites do meu corpo, junto com a transformação, que é a não-passividade, não-indiferença. Só espero que eu não tenha me tornado mole demais pra um mundo que tanto insiste em nos cobrar.