Frankenstein #3: O julgamento de Justine
Tem um capítulo que, pra mim, captura a essência do romance da Mary Shelley. É o julgamento da Justine acerca do assassinato de William, o irmão caçula do Victor Frankenstein.
Pra nos situarmos na história até esse ponto, a criatura já ganhou vida pelas mãos do Victor Frankenstein. Assim que Victor percebe a conclusão de seus esforços, ele abandona a criatura para a sorte do destino.
Passadas algumas semanas e potencialmente meses, Victor recebe uma carta de seu pai, contando que seu irmão caçula William fora assassinado. O pai pede que Victor retorne o quanto antes.
Chegando perto de Genebra, a cidade natal de sua família, Victor avista uma silhueta, que reconhece ser a sua criatura. A partir daí Victor já entra num espiral de tormento psicológico pois ali ele já soube que o assassino do irmão teria sido a criatura (!!!!!!!!)
Ao se juntar à família, entende que a principal suspeita é Justine, uma criada muito querida da família Frankenstein. Uma pessoa calma, honesta, de bom coração. Um retrato de William em seu bolso é a causa da acusação.
Victor sabe prontamente que não foi Justine, e diz para todos os presentes que tem certeza de que não foi ela. Porém, ele não pode fazer nada. Ele sabe que se contar a verdade, não vão acreditar. Por vários motivos: ele estava muito longe, não tem provas nem vestígios de que tal criatura existe mesmo. Ele tem medo de que o tomem como louco e isso ainda gere problemas para si mesmo.
Por fim, Justine confessa. Ao que Victor e Elizabeth (sua prima adotiva e futura esposa) vão questioná-la, ela explica que foi pressionada pelo padre para confessar, pois caso contrário sua alma não seria salva:
'I did confess, but I confessed a lie. I confessed, that I might obtain absolution; but now that falsehood lies heavier at my heart than all my other sins. The God of heaven forgive me! Ever since I was condemned, my confessor has besieged me; he threatened and menaced, until I almost began to think that I was the monster he said I was. He threatened excommunication and hell fire in my last moments if I continued obdurate. Dear lady, I had none to support me; all looked on me as a wretch doomed to ignominy and perdition. What could I do? In an evil hour I subscribed to a lie; and now only am I truly miserable.
(...)
A confissão falsa ao menos traz conforto para Elizabeth, que prezava muito por Justine e não poderia acreditar que ela teria cometido tal atrocidade contra o irmão caçula:
'Oh, Justine! Forgive me for having for one moment distrusted you. Why did you confess? But do not mourn, dear girl. Do not fear. I will proclaim, I will prove your innocence. I will melt the stony hearts of your enemies by my tears and prayers. You shall not die! You, my playfellow, my companion, my sister, perish on the scaffold! No! No! I never could survive so horrible a misfortune.
Ao que Justine retorna:
(...) 'I do not fear to die, she said (...). God raises my weakness and gives me courage to endure the worst. I leave a sad and bitter world; and if you remember me and think of me as of one unjustly condemned, I am resigned to the fate awaiting me (...)
(...)
E Victor:
During this conversation I had retired to a corner of the prison room, where I could conceal the horrid anguish that possessed me (...) the poor victim, who on the morrow was to pass the awful boundary between life and death, felt not, as I did, such deep and bitter agony. I gnashed my teeth and ground them together, uttering a groan that came from my inmost soul (...)
Como podem ver, Justine havia aceitado seu destino de cabeça erguida, enquanto a agonia de Victor o deixava sem ação, preso na culpa e na covardia.
No dia seguinte, Justine pereceu no cadafalso, tal como uma assassina.
E eu vejo esse episódio como central e como um dos mais trágicos pois evidencia que o abandono não vai sair de graça. Só se pode brincar de Deus se puder tolerar as consequências. Logo no começo já temos duas mortes de inocentes, William e Justine, causadas diretamente por Victor. Como ele mesmo diz: not in deed, but in effect
Esse espiral de culpa coloca Victor no isolamento, onde ele nem pode dividir o fardo com ninguém. Não pode contar tanto pela covardia, tanto para que não o achem louco.
No próximo post, quando falarmos do filme do Del Toro, é importante lembrar que o segredo é o motor da parada toda. Por conta do segredo vem também culpa, medo, paranoia, adoecimento do corpo (umas febres muito loucas), e por fim, obsessão. O Del Toro muda um pouco dessa dinâmica, mas falaremos disso em breve.
Alguns críticos que li ao longo do tempo podem até fazer a leitura de que a criatura é o duplo, o doppelgänger do Victor, já que pode ser uma encarnação da monstruosidade que o Victor rejeita em si mesmo. E toda vez que Victor tenta calar ou ignorar a criatura, ele sofre as consequências disso. Mas não vamos ser reducionistas, essa é apenas uma leitura interpretativa que podemos fazer, afinal, a criatura, enquanto rejeitada, tem voz própria e o direito de falar e ter seus desejos.
Uma outra semelhança que consigo pensar seria o paralelo com Crime e Castigo. Esse espiral de culpa e isolamento que o personagem principal entra tem muitas coisas parecidas com o romance russo, apesar dos resultados serem bem diferentes.
Bem, pra fechar, mais um post dessa série pra explicar porque esse é um dos meus livros do coração pra vida toda. Breve vem aí a próxima parte pra falar da adaptação do Del Toro! Então acompanhe por aqui, no th.blog.br, nesse mesmo canal e mais ou menos nesse mesmo horário os próximos capítulos.
Até!